terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mariana Duarte

Quando a gente se viu a primeira vez
Veio uma simples conversa, e se fez
Não entendi. Você não entendeu
O tempo passou
O mundo deu voltas
A distância se fez
E o mundo seguiu suas voltas
Até um encontro casual
Uma saudade imensa
Uma nova conversa
Um primeiro beijo
Um choque. Um frio na barriga
Um jeito diferente
Caí em um outro mundo
Onde as voltas ficam mais claras
As noites mais escuras
O segundo beijo foi a confirmação
Do que o coração já sabia
Foram tantos anos para dois destinos se cruzarem
Estava feito. Seria sempre ela e eu
E agora assim vai ser
Sem medo de dizer
Que o mundo deu voltas traçando dois destinos em um
Eu e ela
Ela e eu
Juntos e ninguém mais

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Uma noite diferente - Final

Giovana estava ali parada junto aos homens de preto. De repente eles vão à cozinha. Sem falar nada. Sem ameaçá-la. Ela estranha. A menina do interior sente medo. Mas sente alívio. Eles não a atacaram. Giovana pensou em pedir ajuda. Porém, parecia não ser uma ameaça. Ela olha para o quarto, vê ambos na cozinha. Nenhuma palavra.

Giovana vai para o quarto. Sente-se mais segura lá. Aos poucos a presença dos homens de capa preta é percebida sem aquele medo inicial. Ela parte, com coragem, para a cozinha. Nada. Sumiram. Mais uma vez. Quando Giovana começava a sentir-se segura, eles somem.

O tempo passa. Giovana arruma-se para o trabalho. Passa um longo dia. Pensa em comentar com alguém. Mas, não. Com ninguém. Ela retorna para o apartamento. A sensação de insegurança não existe mais.

Quando abre a porta pensa em vê-los. Entretanto, nada. Giovana havia até ensaiado uma conversa com os estranhos que invadiram seu apartamento. Muitos outros dias são assim. E nunca mais Giovana sentiu a sensação de ser perseguida. Sentia-se forte. Segura. Giovana estava mais segura. Completamente sem temor. E não era só quanto aos homens de preto. Não se amedrontava com nada.

Giovana percebia que podia ir além. Buscar novas aspirações para sua vida. E assim ela fez. Cresceu profissionalmente. Mas, até hoje não descobriu quem seriam aqueles dois homens de uma noite chuvosa que a fez rever conceitos, buscar novas coisas. Agora Giovana sentia vontade de saber mais sobre eles. Conhecê-los. Todavia não aconteceu. E hoje, as sombras não espantam mais. Ela é mulher. Forte. Valente. Guerreira. Preparada para qualquer desafio físico ou psicológico.

domingo, 27 de julho de 2008

Uma noite diferente - III

Giovana abre os olhos depois de um tempo desacordada. A janela está entreaberta. No quarto apenas a luz da janela leva um feixe de luz para a peça. Giovana está assustada. Com muito medo. Os dois homens de preto haviam entrado. Não há dúvidas de que eles entraram. No canto do quarto um vaso caído e... Giovana fica pálida! Ao lado do vaso uma capa preta.

A menina do interior não sabe o que fazer. A sacada não tem saída de emergência. Correr pelo apartamento seria perigoso. Gritar poderia atrair a atenção dos assissinos. Sim. A esta altura não restavam dúvidas. Os homens de preto foram lá para matá-la. Giovana recua. Encolhesse tentando se auto-proteger.

De repente um barulho vem do corredor. Passos se aproximando da sua porta. Por quanto tempo fiquei desacordada? Será que foram e agora estão retornando? A campainha toca. Mais um susto. Mais medo. Mais tensão. Quem seria. Uma coisa era certa. Os homens de preto, não. Se fossem eles teriam levado a chave, passado pelo porteiro. Definitivamente não eram eles.

Giovana toma coragem e vai até a porta. Pelo olho mágico vê sua mãe. Giovana começa a chorar desesperadamente. Abre a porta. Um apertado e demorado abraço. Giovana pergunta a razão da visita. O porteiro havia ligado para a família para contar que tinha escutado gritos seguidos de um longo tempo de silêncio.

Giovana e a mãe sentam-se no sofá. Em quase uma hora de conversa ela descreveu o que passou. Um quase-fim trágico que parecia estar mudando o último capítulo. Giovana segura a mão da mãe e a conduz para o quarto. Queria mostrar o vaso no chão e a capa preta. Ela acende a luz. Nada. Absolutamente nada. Cama arrumada, vaso em cima da cômoda e nenhuma capa preta.

A mãe de Giovana preocupada deita-se com a filha. Finalmente o tão esperado sono. Pela manhã a mãe saiu para retornar a cidade pequena e ao trabalho. Giovana estava aliviada. Aquilo não havia passado de um delírio. Mas por precaução fechou bem a porta. As duas fechaduras e mais a correntinha que deixa a porta no máximo entreaberta. Um alívio. Ela já se sentia muito bem. O medo havia passado. O delírio se foi. E assim Giovana vira-se para retornar ao quarto. Só que ali na sala estavam eles, em pé: OS HOMENS DE PRETO.

sábado, 12 de julho de 2008

Uma noite diferente - II

Giovana dá um salto da cama. Corre em direção a porta de saída do apartamento. Um apartamento pequeno. Em segundos estava lá. Mas ela lembrou que havia esquecido as duas facas ao lado da cama. Resolveu voltar. Correndo ainda mais que na saída do quarto. Rapidamente pegou as duas facas. Quando saia em velocidade, olhou de relance para a janela. Estava fechada. Veneziana baixa.

Ela entrou em desespero. Giovana tinha certeza de que não estava louca. Eles estavam ali. A moça tinha certeza que os homens de preto estavam ali. Será que ela estava louca? Booom. Um estouro no banheiro. Algo havia caído no chão. Eram eles. Os homens de preto. Como eles entraram tão rápido e sem fazer barulho?

O banheiro fica entre o quarto e a porta de entrada do apartamento. Não tinha como fugir. Chorando, Giovana buscou o canto do quarto. Foi sentando-se, desesperada. As facas nas mãos eram a única forma de defesa. Giovana tentou ouvir algo no banheiro. Silêncio absoluto. Nada.
Vagarosamente ergueu-se. Aos poucos foi ganhando coragem e se aproximando do banheiro. Colocou a mão no trinco e abriu rapidamente a porta. No chão alguns objetos. Ao lado estava o seu gatinho. Giovana tinha um gato. – Como você entrou aqui?

Giovana saiu do banheiro, serviu comida para o gato e voltava para o quarto quando se lembrou dos homens de preto. Pensou ser bobagem. Resolveu, então, deitar. Finalmente iria descansar. Tudo não tinha passado de imaginação.

Giovana se deitou e viu a veneziana um pouco aberta. Bobagem. Levantou e foi em direção a janela. Fechou. Mas a curiosidade falou bem mais alto. Resolveu levantar mais uma vez, só para se certificar que de fato aquilo tua era imaginário fértil. Puxou a veneziana vagarosamente, com receio e cuidado. Quando ela passou da metade, não tinha mais volta. A chuva aumentou. Giovana gritou. Gritou alto. Ali estavam eles. Parados. Os dois homens de preto.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Uma noite diferente - I

Aquela era uma noite diferente. Uma noite chuvosa. Estranha para Giovana. O reflexo através da janela do ônibus parecia indicar que algo de amedrontador deveria acontecer. Passava das sete horas da noite. A moça, de 26 anos, estava indo para o supermercado. Havia trabalhado muito naquele dia. Dia corrido. Dia que parecia não terminar.

Giovana desceu do ônibus minutos mais tarde. O super ficava distante apenas algumas quadras de seu local de trabalho. E meia hora a mais, estaria em casa. Quando entrou, pegou um carrinho grande. No inicio do mês todos pegam os carrinhos grandes. Mas a sensação de algo estranho não passava. Isso a perturbava. Parecia que todos estavam a olhá-la. Aquela menina que havia abandonado a cidade do interior, onde tudo era pano para as conversas de fim de tarde, sentia-se novamente vigiada.

Nos corredores o carrinho começou a ganhar compras. Muitas compras. Tantas quanto seu vale compras agüentasse. Essa era a estratégia de Giovana: comprar tudo no inicio do mês e garantir o sustento por todos os 30 dias. Quando tudo parecia voltar ao normal, a desconfiança de que algo pudesse estar errado estava passando, a Giovana já estava deixando o supermercado.
Chamou um táxi. E viu, cinco metros a seu lado, dois homens. Dois homens de capa preta de chuva. Dois homens assustadoramente grandes. O táxi parou. Giovana entrou. Passou o endereço de seu apartamento. Mas antes de arrancar, os dois homens de preto entraram em outro carro laranja. Outro táxi.

O carro em que Giovana estava arrancou. Logo atrás, o carro dos dois homens. Ela pressentiu. Giovana tinha certeza de que isto era mais um sinal de que aquela noite chuvosa não terminaria bem. Pediu para que o taxista acelerasse. Ele acelerou na mesma velocidade em que o seu companheiro de profissão aumentava a rotação do motor no carro de trás. Era uma perseguição. Giovana tinha certeza de que era uma perseguição.

O que fazer? Não descer? Pedir ajuda ao taxista? Ele a chamaria de louca. Dezenas, centenas, se não milhares de taxis eram exatamente iguais aquele. Será que ela estava ficando louca? Quem eram aqueles dois homens de preto? O que aconteceria nesta noite?

Giovana desceu assustada em seu apartamento. A corrida foi cara. Mas paga com prazer. O salário tinha sido debitado no dia anterior. Com muitas sacolas, Giovana pediu para deixar algumas compras na recepção, com o porteiro. Teve de subir ao terceiro andar apenas uma vez. Ela levou uma carga; o porteiro, outra. E nos mais ou menos três minutos que ela ficou solitária no hall de entrada do prédio: a sensação ruim.

Giovana virou-se para a porta. Lá fora chovia muito. Muito mesmo. Torrencialmente. Mas com um pouco de esforço ela percebeu. Sentiu medo. Viu. Chorou. Lá do outro lado da rua estavam eles. Os dois homens de preto. Eles não poderiam estar ali. Por que eles estavam ali? Ela respirou e olhou para o rosto de um deles. Parecia um albino. Branco. Branco como um papel. E um olhar profundo e penetrante, quase hipnotizante.

O porteiro chegou de volta. Giovana estava assustada. Apontou a ele a porta da frente. Nada. Os homens sumiram! Os dois homens sumiram? Ela agradeceu e subiu as escadas. Guardou as compras. Agora era a hora do tão esperado banho. Será que os dois homens de preto eram reais? A jovem loira, do interior, face branca, olhos azuis, rosto de menina doce e meiga, e com muitos sonhos para realizar estava ali, parada, sozinha, fitando seu próprio olhar, tentando convencer-ser de que tudo foi ilusão. Seu dia enfim, seria perfeito. Nada de atormentos.

Depois de tomar um compensador banho, Giovana começou a preparar a janta. Quando cortava a cebola escutou um barulho na janela do quarto. Parecia uma pedrada. Pegou a faca que usava e caminhou lentamente até a cômoda ao lado da janela. Ninguém no quarto. Virou-se para retornar a cozinha, mas tornou a olhar a janela. Desta vez, abriu a veneziana. Lá estavam eles. Os homens de capa preta. Parados na mesma posição que ela havia enxergado da porta de entrada do prédio.

Giovana fechou a janela. Assustada. Mas sentindo-se protegida por estar em casa. Pensou em ligar para a mãe. Já era tarde. Iria assustá-la. Tinha poucos amigos na cidade grande. Ela queria dedicar-se ao trabalho e a faculdade de enfermagem. O que fazer? Voltou a cozinha. A essa altura, a fome sumiu. Giovana resolveu deitar. Levou duas facas para o lado da cama. Não conseguia pregar os olhos. Estava inqueita, nervosa, impaciente. Ela fez uma oração. E, repentinamente, a veneziana é puxada pelo lado de fora. Não abre completamente. Até a metade. O suficiente para ver parte da capa. Do corpo. Eram eles, os homens de preto.

Até a próxima...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

20h59min

Pontualmente as 20h59min desta sexta-feira, 20 de junho, começa a estação mais fria do ano. E este inverno promete, segundo as previsões do tempo, ser muito rigoroso. Frio mesmo. Friozão. Aliás, o outono deu, nos últimos dias, uma prévia disso. Aí pergunto pra você: imagina para quem vive em uma casa de madeira com diversas frestas, apenas uma peça e chão batido? Essa é a situação na casa da dona Adriana.

O Fábio Muniz e eu saímos para gravar uma matéria sobre o inverno. O primeiro objetivo era pegar uma imagem de um relógio que mostrasse o exato momento, a hora e o minuto em que o inverno chega. 20h59min. Feito isso fomos para o segundo passo. Buscar uma família humilde. Desta forma mostraríamos que o inverno não é só feito de sopa e vinho – já havíamos feito uma matéria com este foco. E depois de muita procura, encontramos.

Passamos em frente a diversas casas até que uma chamou atenção. Casa simples, feita de madeiras simples, com bastante distância entre elas, uma pequena luz no centro que refletia através das fissuras entre as tábuas. Paramos e batemos palmas. Esperamos um pouco. Talvez a família não se disponibilizasse a gravar a reportagem. Existia esta possibilidade.
Quando a porta de madeira se abriu, uma menina de dez anos de idade apareceu contra a luz. Apenas sua silhueta era disponível ao nosso olhar. Perguntamos se poderíamos gravar a reportagem mostrando as dificuldades de pessoas humildes nesta estação. A garota virou-se e perguntou a mãe – que já dormia; Adriana autorizou nossa entrada.

Entrando na peça de chão batido vimos um pedaço de roupeiro com diversas roupas amontoadas no canto esquerdo; a direita um fogão a lenha com a chama se apagando; ao lado do fogão dois colchões empilhados e um garoto dormindo com dois “pintinhos”. Isso mesmo. Dois pintos. Mais tarde, a menina que atendeu a porta deitou-se ao lado dele, seu irmão. Na outra cama, esta de casal, a dona Adriana e mais três filhos. Uma delas pequenininha, de apenas seis meses. Todos juntos, amontoados, para driblar o frio.

Conversamos um pouco. E, evidentemente, as dificuldades desta família – ao todo são oito pessoas na casa – são a fiel história de uma grande parte (talvez a maior) de todo o mundo. O frio é apenas mais um obstáculo. Portanto, não contarei detalhes específicos. Acredito que cada um de nós deve tomar pequenas atitudes para amenizar um pouco desta tão gritante diferença entre as classes sociais.

Talvez a doação não seja o melhor a se fazer. Tem aquela frase que diz: “Não dê o peixe, ensine a pescar”. Porém, em um caso de aperto no peito, faz-se o quê? A difícil história desta família vai ser mostrada neste primeiro dia de inverno. E, na próxima semana, o Fábio e eu prometemos retornar àquela casa humilde para levar algumas roupas e um rancho. E faremos. É certo? Não sei. Mas é um primeiro passo.

Ah! Esqueci de comentar. O sobrenome da família da dona Adriana é Messias. E ela torce e reza todos os dias para dar uma vida melhor aos filhos. Boa sorte, Adriana.

Até...

domingo, 15 de junho de 2008

Uma linda história para contar. E ler

Aquela seria apenas mais uma matéria sobre o Campeonato Gaúcho 2008. Seria. Mas antes de saber um pouquinho da história do “Joy” – que motivou até uma comunidade no site de relacionamentos Orkut - é preciso voltar uma semana atrás.

O almoço
Uma hora para almoçar é complicado, convenhamos. Você chega atrasado, ou seja, perdeu o almoço com a família. Os pequenos já têm que ir para o colégio. Afinal passa da uma hora. Mesmo assim, aquele início de tarde se mostrou diferente. O seu Adair Seixas, marido de minha mãe, sentou-se, como sempre, ao meu lado – apesar de ambos estarem sempre correndo contra o relógio naquele horário – para conversarmos um pouco. Desta vez, era uma história especial, diferente. Quando ele começou a contar um pouco da vida do Jhonathan, de dez anos, eu nem sabia se gostaria de almoçar, ou tentar achar a melhor forma de contar aquela história.
Quando minha mãe, Maria da Luz, retornou da escola, onde havia deixado a minha irmã, o conto continuava. Um clima especial de emoção tomou conta da cozinha de paredes brancas, com uma mesa de vidro ao centro e quatro cadeiras. A comida já havia sido retirada. Meu almoço ficava servido em um prato dentro do microondas. E nós, mãe e filho, prestávamos atenção a cada detalhe da história do garoto.

Vida curta e de luta
Certamente muitas crianças, adolescentes, adultos e idosos devem ter uma história de luta contra o câncer como Joy. E é exatamente por isso que a vida dele representa um pouco de cada uma das vidas de quem luta contra esta doença.
Seu Adair começou contando que o garoto estava em uma Associação de Pessoas com Câncer, em Pelotas, quando um de seus amiguinhos acabou perdendo a luta para o câncer. Colorado como Jhonathan, o garoto não tinha um fardamento do Internacional. Mas Joy tinha. E cedeu para o que pequeno companheiro pudesse partir com o uniforme do clube de coração destes pequenos/grandes guerreiros.
Na luta de Joy foram muitas quimioterapias, cirurgias, ansiedade dos pais e uma amputação. Com menos de dez anos de idade o garoto acabou perdendo uma das pernas. Para um apaixonado por jogar futebol com os amigos seria o fim das partidas a qualquer hora do dia. Para ele, não.

De volta ao trabalho
Depois do almoço cheguei à redação, em Pelotas. Contei um pouco da história para os colegas e disse que a contaria em uma matéria antes do jogo. E mais, tentaria ajudar o garoto a realizar seu sonho: assistir uma partida do Inter.
Era semana de grande jogo no estádio Bento Freitas. Brasil, de Pelotas, e Internacional, de Porto Alegre. Os ânimos das torcidas estavam acirrados. O Inter vinha com bom futebol; o xavante buscando a reabilitação. E o Joy querendo assistir ao jogo. Liguei para os pais do garoto e acertei de gravar a matéria – com meu grande amigo e cinegrafista Leonardo Silva – no dia seguinte.
Porém, a luta para realizar o sonho do garoto foi mais árdua do que pensei. Um dos colegas ligou para a diretoria do Internacional. Disse-me ele: “a diretoria do Inter não aceitou”. Falou isso, pois, havia pedido para que ele tentasse com que Joy entrasse em campo com o Internacional.
Mas no dia seguinte, o da matéria, eu tentei mais uma vez. Uma negativa. Duas. Só que eu conseguiria. Sabia que não era impossível. Foram seis ligações. Seis! Só aí um dirigente afirmou que sim, seria possível o garoto entrar em campo com o clube. Bastava a diretoria do Brasil aceitar. A partir daí eu estava em casa; sempre tive um ótimo relacionamento com os três clubes profissionais de Pelotas. Desta vez foi uma ligação.

Grande garoto
Partimos para a matéria, o Leonardo e eu, sabendo que esta matéria já começara diferente. E continuaria diferente. Ao chegar à casa de Joy, em um bairro de Pelotas, muitas pessoas já nos aguardavam. Vizinhos, amigos e os pais deste pequeno guerreiro.
Eles nos aguardavam, pois os garotos, amigos de Joy, e ele, claro, estavam a cerca de 20 metros dali. Um campinho daqueles que todo o garoto um dia já jogou. Traves de madeira, buracos para todos os lados e um monte de meninos correndo atrás de uma bola suja de barro das partidas com chuva, diferente daquele lindo dia de sol.
Um dos meninos se destacava. Cabeça erguida, visão de jogo, bom passe e gol. Até aqui nada demais. Afinal, muitos garotos são bons de bola. A diferença é que este garoto, destaque entre os 12 que jogavam no campinho, não tinha uma das pernas. Era o Joy.
Na entrevista com os pais, evidentemente, um clima de comoção tomou conta da sala da casa simples. Pai e mãe lembraram de muitos detalhes de uma pequena vida de superação. Frases como “mãe, não vou parar de jogar futebol com meus amigos só porquê perdi uma perna” ou “não chora pai, nós todos vamos vencer juntos”.
Na conversa com o Joy percebi um menino tímido. Talvez as luzes e o microfone assustassem um pouco. Mesmo assim houve um clima de consternação de todos que presenciaram a cena. O ponto forte, no entanto, foi quando abordei em uma pergunta que ele entraria com os ídolos no gramado da baixada (como é conhecido o Estádio Bento Freitas). Joy respondeu: “Acho que tenho vergonha”.

Sem vergonha de comemorar
O reencontro com Joy foi no gramado do estádio Bento Freitas, em um domingo de arquibancadas lotadas. O menino estava lá com um grande sorriso ao lado do pai e do seu melhor amigo. Todo vestido com as cores do Inter foi aproveitando cada momento. Bateu fotos, pegou autógrafos e realizou um sonho.
A fila de jogadores do Inter se preparavam para entrar em campo. Joy queria ao lado do capitão Fernandão. Mas como um outro menino acabou pegando a mão do camisa nove colorado, o menino de 10 anos deu um sorriso e passou para o lado de Iarley. Passos firmes com suas muletas até o local onde estava a torcida do Internacional. E para lá que Jhonathan foi, depois.
E ele pode comemorar muito. Claro que eu torcia por uma vitória xavante, afinal temos de valorizar os clubes da cidade que trabalhamos. Só que, em uma partida irreparável, o Internacional aplicou cinco a zero no Brasil. E o Joy pode comemorar seis vezes. Isso pois, Marcão, do Inter, autor de dois gols na partida, doou sua camisa número seis para o pequeno campeão.

Hoje, tempo depois, resolvi resgatar um pouco daqueles dois dias maravilhosos. Se você, Joy, comemorou muito com o Inter. Até hoje comemoro de poder fazer parte de um pouquinho da tua linda história. Obrigado, meu amigo. Mas acabo de me emocionar, mais uma vez, e vou parar de escrever.

Até a próxima...